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sábado, 29 de abril de 2017

A Turma de 1937 da Escola Normal de Dores do Indaiá




Escola Normal Francisco Campos, em 1934. Foto colhida da casa
de meu bisavô Pedro José de Oliveira e Silva, onde morava
Maria de Oliveira. À direita, parte lateral das Classes Anexas.
Foto do acervo de Ângela e Mônica Corrêa. Autor desconhecido.


Durante a nossa vida
Conhecemos pessoas que vêm e que ficam,
Outras que vêm e passam.
Existem aquelas que
Vêm, ficam, e depois de algum tempo se vão.
Mas existem aquelas que vêm e se vão com uma enorme vontade de ficar...
               Charles Chaplin      


Corria o ano de 1937. O mundo caminhava vorazmente para o turbilhão da II Guerra Mundial. Seu fantasma começava a rondar os europeus, sua indústria, seus gabinetes governamentais, sua cultura e seu ideário. Os acontecimentos se precipitavam. A geopolítica europeia estava no alvorecer de convulsões intestinas que levariam à perda de milhões de vítimas com a hecatombe da guerra. Adolf Hitler, violando o Tratado de Versalhes, havia invadido e ocupado novamente o Vale do Ruhr, região superindustrializada da Alemanha e que havia sido ocupada pela França após a I Guerra Mundial. A União Soviética vivia seu inferno astral iniciado em 1917 e culminado com o início dos julgamentos espúrios de Moscou no ano anterior, numa sangrenta luta fratricida e autofágica que dizimou os velhos líderes bolcheviques propiciando o poder absoluto para Stalin. A Itália vivia o apogeu do fascismo, com sua violência e perseguições políticas, e colhia os efêmeros louros da invasão militar à Abissínia, atual Etiópia, numa aventura delirante de Benito Mussolini. A Espanha entrava no segundo ano de sua não menos sangrenta Guerra Civil que iria fraturar o país em duas partes irreconciliáveis e manteria esta divisão trágica por mais 30 anos. O mundo se traumatizou com a notícia do estúpido e criminoso bombardeio pela Força Aérea Alemã, a pedido do General Francisco Franco, de orientação fascista, da pequena cidade basca de Guernica, quando perderam a vida estraçalhados centenas de civis, crianças, adultos e idosos. Dois meses depois o pintor espanhol Pablo Picasso concluiria sua obra mais famosa, Guernica, imediatamente apresentada na Exposição Internacional de Paris de 1937. A Inglaterra ainda traumatizada com a morte do Rei Jorge V, a subida ao trono de seu filho Eduardo VIII e sua abdicação poucos meses após, a fim de se casar com a divorciada norte-americana Wallis Simpson, levava ao trono seu irmão George VI, pai da atual rainha Elizabeth II. Na cadeira de Primeiro Ministro da Grã Bretanha se assentava o tíbio Neville Chamberlain, um dos responsáveis pelo vórtice que levou à tragédia da guerra. Nos Estados Unidos Franklin Delano Roosevelt era sacramentado para seu segundo mandato presidencial. O povo americano ainda estava chocado com a tragédia do incêndio e total destruição do dirigível Hindemburg, quando um ídolo de sua aviação civil, a piloto Amelia Earhardt e seu navegador Fred Noonan, dois ícones dos ianques, desaparecem em um voo solitário nos céus do Oceano Pacífico após decolagem na Nova Guiné. No Oriente continuavam os lances sangrentos da guerra Sino-Japonesa até que a vitória final coubesse aos nipônicos. No mundo das artes a Alemanha assistia emocionada à première da ópera Carmina Burana, de Carl Orff , em Frankfurt. Nos Estados Unidos os Estúdios de Walt Disney faziam a sua première de um dos mais consagrados desenhos animados da história do cinema: Branca de Neve e os Sete Anões. Ernest Hemingway lançava sua novela To Have and Have Not, transformada em filme de grande sucesso poucos anos depois e intitulado no Brasil como Uma Aventura na Martinica, com performance extraordinária de Humphrey Bogart e Lauren Bacall. O maestro Arturo Toscanini, aos 70 anos, estreava apresentações de concerto pelo rádio, regendo a Orquestra Sinfônica da NBC, que seria um grande sucesso pelos 15 anos seguintes. Este foi também o ano de nascimento de grandes astros do cinema, como Vanessa Redgrave, Warren Beatty, Jack Nicholson, Morgan Freeman, Dustin Hoffman e o diretor Ridley Scott. O ator e dançarino Fred Astaire encantava as plateias de todo o planeta com dois de seus maiores desempenhos nos filmes Vamos Dançar?, em que contracenava com a incrível Ginger Rogers, e Cativa e Cativante, contracenado com a bela Joan Fontaine. Compositores como George e seu irmão Ira Gershwin, Oscar Hammerstein II, Jerome Kern se encontravam no Olimpo da música popular norte-americana e eram tocados em todo o mundo. Entretanto, a música mundial era dominada pelo jazz norte-americano. Orquestras como a de swing de Benny Goodman explodiam numa popularidade nunca vista anteriormente na história. Sua apresentação no Carnegie Hall, em janeiro, numa sala de espetáculos eruditos onde o jazz nunca antes tivera qualquer chance, transformou este gênero musical não apenas em música dos negros e ex-escravos pobres do sul dos Estados Unidos, mas na genuína música erudita norte-americana, que já era apreciada em todo o mundo. A gravação de Sing-sing-sing, ao vivo em pleno Carnegie Hall, pela  Orquestra de Benny Goodman, levou-o ao hall da fama, permanecendo no primeiro lugar das paradas de sucesso da revista Bill Board por diversas semanas. Daí em diante esta orquestra se tornaria uma lenda e hoje é história. Músicos e suas orquestras, como Count Basie, Duke Ellington, Tommy Dorsey, Guy Lombardo, faziam o delírio dos fãs mundo afora. Cantores românticos como Bing Crosby hipnotizavam as massas de jovens pelo planeta. Mahalia Jackson, com seu gospel inimitável, emocionavam um público cada vez maior. Na França, as músicas de Charles Trenet, embalavam os jovens, os maduros e os idosos com seu sentimentalismo romântico-patriótico. Dez anos depois sua antológica Douce France se tornaria o segundo hino nacional francês depois de tornar-se o hino da Resistência aos nazistas. 



O jovem Francisco Luís da Silva Campos.
S/d. Autor desconhecido.


No Brasil o presidente constitucional Getúlio Vargas impôs a ditadura do Estado Novo, endurecendo o controle político e social do país, criando uma tirania que duraria até 1945. A constituição do Estado Novo foi criada e redigida pelo Ministro da Educação e Cultura Francisco Luís da Silva Campos, nascido em Dores do Indaiá, Minas Gerais. Recrudesceu a repressão aos comunistas, representada principalmente pela prisão do dirigente Luís Carlos Prestes, líder da fracassada revolução comunista de 1935 (a Intentona Comunista), e condenado a 16 anos de prisão. O movimento integralista brasileiro, de nítida coloração fascista, liderado por Plínio Salgado, jornalista, escritor e político, aumentava gradualmente o número de seus militantes por todo o território nacional. Plínio havia participado da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo antes de se enveredar pela política. As músicas de maior sucesso no Brasil naquele ano da graça de 1937 eram: Carinhoso, de Pixinguinha, na voz de Orlando Silva; Chão de Estrelas, com Silvio Caldas; Periquitinho Verde, com Dircinha Batista; Coração Materno, com Vicente Celestino; Lábios que Beijei, com Orlando Silva; Mamãe Eu Quero, com Jararaca e Ratinho; Serra da Boa Esperança, com Francisco Alves; Não Tenho Lágrimas, com Patrício Teixeira e Rosa, com Orlando Silva. O cinema brasileiro não se destacou naquele ano. Dois filmes foram lançados: O Bobo do Rei, com direção de Mesquitinha e roteiro de Joracy Camargo e estrelado por Conchita de Moraes, Wanda Marchetti e Déa Selva, e Bombonzinho, uma comédia dirigida por Mesquitinha e estrelada por Dircinha Batista e Oscarito. O teatro brasileiro vivia uma época de forte censura neste ano em que foi criado o Serviço Nacional de Teatro pelo Estado Novo. Geralmente se apresentavam peças de autores internacionais com ênfase em William Shakespeare, notadamente no eixo Rio de Janeiro e São Paulo.



Francisco Luís da Silva Campos (1891-1968).
S/d. Autor desconhecido.


Esta longa digressão foi necessária para se enfatizar o contexto histórico e cultural em que o mundo vivia naquele ano da graça de 1937. Enquanto tudo era efervescência em outras paragens, numa época em que o mundo estava prestes a mergulhar no horror da guerra, o panorama era bem mais prosaico e manso na hinterlândia brasileira. Entrando no microcosmo da cidade de Dores do Indaiá, no sertão do Campo Grande, em Minas Gerais, minha mãe, Maria de Oliveira, graduava-se pela Escola Normal Francisco Campos, em 8 de dezembro de 1937. A Escola Normal, fundada em 1928 pela extraordinária ação do Ministro Francisco Campos, tivera sua primeira turma diplomada em 1928. Logo a escola se tornaria renomada pela excelência de seu ensino, pela qualidade de seus professores e pela seriedade com que encarava a questão pedagógica. Passou a atrair a atenção de famílias de toda a região do Alto São Francisco, Alto Paranaíba, demais cidades do Oeste de Minas e até de outras regiões do estado. Jovens moças de famílias abastadas e de classe média foram matriculadas por suas famílias nesta escola e passavam a residir no pensionato, construído na mesma ocasião e chamado de Classes Anexas. Em 1937 a escola já era bem conhecida em todo o estado. Neste ano a turma das graduandas não era numerosa, algo em torno de 25 alunas. Todas muito unidas como se depreende de algumas fotos tomadas em 1936.



Professores da Escola Normal Francisco Campos no início da década
de 1930. Da esquerda para a direita: Dr. Edgard Pinto Fiúza,
Cornélio Caetano, Henrique Schmitz.
Foto do acervo de José Antônio Guimarães de Faria.



Quadro de formatura da primeira turma de normalistas em 1928.
Foto do acervo de José Antônio Guimarães de Faria.



1- Yone Faria Guimarães
2- Yeda de Faria Moura
3- Dayse Gouthier
4- Alda Nunes
5- Dr. Edgard Pinto Fiúza
6- Carminha Soares
7- Maria Cândida
8- Laura Fiúza Guimarães
9 Maria de Oliveira
10- Neide Faria Guimarães
1936. Foto do acervo de José Antônio Guimarães de Faria


Foi com imenso júbilo que recebi um grande presente: cópia dessas fotos encaminhadas pelo amigo José Antônio Guimarães de Faria, filho de Yone Faria Guimarães, uma das normalistas desse citado ano. A meu pedido, e com imensa amabilidade, José Antônio obteve junto a sua tia D. Maria Helena Fiúza Guimarães, D. Heleninha, professora aposentada desse nobre educandário, os nomes de grande parte das alunas aqui retratadas. Alguns anos antes, exatamente em 2001, eu obtivera junto a minha prima Ceci de Oliveira e seu genro Contardo Guimarães de Faria os nomes da maioria dos componentes da foto colhida após a celebração da missa quando da formatura da turma, em 1937, na escadaria da Matriz de Nossa Senhora das Dores. São fotos excepcionais pela sua qualidade, nitidez, boa preservação e que retratam um mundo ainda poético, singelo, em que se pode ver claramente nos rostos das formandas uma aura e uma luminosidade de quem tinha a confiança de possuir um belo porvir. Todas muito jovens, por volta de seus vinte e poucos anos, irradiavam a alegria do dever quase cumprido.



1- Prof. Edgard Pinto Fiúza
2- Prof. Eurípedes Campos
3- Profa. Esther Alves
4- Yeda de Faria Moura
5- Dayse Gouthier
6- Carminha Soares
7- Laura Fiúza Guimarães
8- Lilá Fiúza França
9- Maria Cândida de São José
10 Maria de Oliveira
11- Yone Faria Guimarães
12- Neide Faria Guimarães
13- Alda Nunes

1936. Foto do acervo de José Antônio Guimarães de Faria


1- Yeda de Faria Moura
2- Alda Nunes
3- Prof. Edgard Pinto Fiúza
4- Maria de Oliveira
5- Maria Cândida de São José
6- Dayse Gouthier
7- Yone Faria Guimarães
8- Carminha Soares
9- Laura Fiúza Guimarães
10- Neide Faria Guimarães
1936. Foto do acervo de José Antônio Guimarães de Faria


1- Prof. Waldemar de Almeida Barbosa
4- Zilda Fiúza Faria
5- Yeda de Faria Guimarães
10- Guilhermina Ude
11- Olavo Silva
12- Neide Faria Guimarães
13- Carmen Fiúza
14- Maria do Patrício
15- Maria do Lincoln
16- Carminha Machado
17- Carminha Soares
18- Alda Nunes
20- Araci do Bentinho
22- D. Altina Costa (?)
23- Maria de Oliveira
24- Yone Faria Guimarães
25- Dayse Gouthier
26- Laura Fiúza Guimarães
27- Dorinha Moura
28- Lilita Botinha (Luz)
29- Profa. Esther Alves
31- Neusa Caetano
32- Maria Costa (irmã da Jalma Costa)
1936. Foto do acervo de José Antônio Guimarães de Faria


1- Prof. Dr. Eurípedes Campos
2- Prof. Dr. Edgard Pinto Fiúza
3- Prof. Waldemar de Almeida Barbosa
9- Dayse Gouthier
10- Yone Faria Guimarães
13- Lilita Botinha (Luz)
14- Yone Faria Guimarães
16- Maria de Oliveira

1936. Foto do acervo de José Antônio Guimarães de Faria


1936. Profa. Esther Alves e alunas. Acervo de Maria de Oliveira.


As formandas de 1937 e os professores defronte a Escola Normal Francisco Campos.
Foto de autor desconhecido. Acervo de Maria de Oliveira.


Dores do Indaiá em 1937. Foto tomada de dentro do prédio da Escola Normal,
provavelmente pelo mesmo fotógrafo e no mesmo dia em que foi tomada a foto anterior.
Acervo de d. Maria das Dores Caetano Guimarães.



Dores do Indaiá, particularmente a Escola Normal, vivia uma época de ouro em seu sistema educacional. Grandes mestres iluminavam as aulas nos diversos educandários. Alguns se tornaram verdadeira lendas do ensino dorense e mineiro. Destacaram-se os professores dr. José Soares de Carvalho, Henrique Schmitz, de naturalidade alemã, Cornélio Caetano, o médico Edgard Pinto Fiúza, Waldemar de Almeida Barbosa, Esther Alves, Eurípedes Campos, oriundas do Rio de Janeiro as irmãs Iracema, Juracy e Jacira Duffles Teixeira (irmãs do Marechal Henrique Duffles Teixeira Lott), Aspásia Vieira Ayer, Zilá França Fiúza, Dr. José Argemiro de Moura, Maria Fiúza Guimarães (Tota) e muitos outros.



1937. Missa de colação de grau. Formatura das normalistas. Matriz de N.S. das Dores.

1- Nilza do Jorge Caetano

2- Jalmira Costa 
3- Iracema Caetano
4,8- Famílias de Bom Despacho
9- Dr. João Chagas de Faria (Di)
10- Dr. Miguel Gontijo (ou seu irmão), de Bom Despacho
11- Dilermando Corrêa de Souza
12- Dayse Gouthier
14- Maria das Neves Corrêa (Nevita)
15- Prof. Waldemar de Almeida Barbosa
16- Vandinho
17- Maria de Oliveira
18- Alda Nunes
19- Francisco (Chico) do Patrício
20- Ramiro Botinha (tabelião de Luz)
21- Carminha Machado
22- Tonico Caetano
24- Maria do Patrício
26- Ieda Moura
27- Dr. Juquinha
28- Maria do Lincoln
29- Joãozinho Caetano
31- Alcírio Carvalho
35- Moça de Estrela do Indaiá
36- Araci do Bentinho
37- Bentinho
38- Laura Caetano
40- Romeu Soares
41- Dr. Jacinto Fiúza
42- Walter Ude
43- Guilhermina Ude
44- Filha do Dr. Jacinto Fiúza
45- Dr. Ricardo Fiúza
46- Carminha Soares
47- Vicente Carvalho (do Indalécio)
48- Carmen Fiúza
49- Olavo Silva
52- Celina Moura (do Vicente Carvalho)
53- Neide Guimarães
54- Dr. Eurípedes (diretor da Escola Normal)
55- Profa. Esther Alves


Acervo de Maria de Oliveira.













Vendo a monografia de conclusão de curso de minha mãe pude constatar o rigor, o grau de exigência dos professores para com as normalistas, a fim de que pudessem receber os seus diplomas. Seu tema versou sobre métodos pedagógicos a serem aplicados na alfabetização de crianças. A Escola se esmerava no ensino e seu principal objetivo era formar excelentes professoras que, por sua vez, iriam formar novos alunos, o futuro da nação.



Foto de 1934. Profa. Aspásia Vieira Ayer em primeiro plano. 
Na segunda fila, à esquerda, a Profa. Esther Alves. Ao centro 
o Prof. Edgard Pinto Fiúza. À direita de D. Esther minha tia 
Angélica de Oliveira Corrêa. Foto do acervo de Ângela 
e Mônica Corrêa. Autor desconhecido.



1934. Profas. Aspásia Vieira Ayer e Esther Alves. Foto do acervo de Ângela e Mônica Corrêa.
Autor desconhecido.


Além da Escola Normal Francisco Campos outros educandários em Dores do Indaiá se destacavam na área do ensino em toda a região do Alto São Francisco. Dentre eles o Instituto Guimarães (foto abaixo), fundado pelo prof. Cornélio Caetano, em 1911, e que sobreviveu até meados da década de 1920. 



Dores do Indaiá, alunos do Instituto Guimarães, 1920. Foto de autor desconhecido.
Meu pai, Dilermando Corrêa de Souza, então com 8 anos, 

encontra-se na primeira fileira assinalado pelo número 1. 
À direita, o prof. Waldemar de Almeida Barbosa, número 2.
Acervo de José Antônio Guimarães de Faria.



1929. Colégio Dorense, fundado pelo prof. Henrique Schmitz em 1927. Turma da 
profa. Iracema Duffles Teixeira. Acervo de Maria de Oliveira.






Década de 1930. Colégio Dorense. Prof. Cornélio Caetano e alunos. S/d. Autor desconhecido. 
Acervo de Ângela e Mônica Corrêa.




1937, Colégio Dorense (já se chamando Ginásio Dorense). Prof. Waldemar de Almeida Barbosa
e alunos. Foto de autor desconhecido. Acervo de d. Maria das Dores Caetano Guimarães.




Vista aérea de Dores do Indaiá em 1936. Foto de Waldemar de Oliveira.
Acervo de Ângela e Mônica Corrêa.
                               


Vista panorâmica de Dores do Indaiá em meados da década de 1930.
Vê-se, à direita, a Matriz de São Sebastião, demolida em 1937.
Foto de autor desconhecido. Acervo de Ângela e Mônica Corrêa.



Quando olho para estas fotos me transporto para um tempo que não vivi, não senti, não experimentei. Mas é como se eu ali estivesse, em carne e osso, amigo, colega ou confidente dessas jovens. Coloco-me no papel do professor e imagino quão gratificante devia ser lecionar para uma turma que se revelava tão unida, tão companheira, tão amiga, tão irmanada num sentimento de solidariedade. Coisas que vi poucas vezes nas várias décadas em que eu mesmo fui professor. Como devia ser bom ensinar essas jovens a dar aulas, orientá-las nos meandros da pedagogia educacional, nos princípios de puericultura e higiene materno-infantil, mostrar o que era uma célula ao microscópio, oferecer noções de botânica, ou demonstrar as reações ácido-base em um tubo de ensaio. Sim, a Escola Normal possuía laboratórios de química, física e biologia, providenciados pelo grande prof. Schmitz, importados da Alemanha. Dilapidados com os anos, não se fala mais nos laboratórios da Escola.

As normalistas eram treinadas no método Decroly para a alfabetização de crianças. O grande médico e educador belga Ovide Decroly, conhecido universalmente, criador do Método Global em educação, foi a grande estrela-guia da pedagogia daqueles tempos. Tempos que duraram longo período, pois eu mesmo fui alfabetizado, em 1951, através do Método Global. Este método partia do princípio de que a criança aprenderia com mais facilidade se fosse apresentada inicialmente ao conjunto de uma ideia, por exemplo uma frase. A frase é memorizada e progressivamente dividida em palavras e sílabas com a devida associação fonética à gráfica (associação de fonemas e grafemas). Por fim, a decomposição das sílabas e seus sons em letras que serão utilizadas para compor novas sílabas e palavras. Este método foi adotado em Minas Gerais com a reforma do ensino e da educação instituído pelo Secretário do Interior e da Educação, Francisco Campos, em 1927, no governo Antônio Carlos Ribeiro de Andrada. Ele fora o dorense de maior destaque na história desta cidade. Ficou conhecida como Reforma Francisco Campos. Estimulada pela sua mestra Lúcia Casasanta, uma das alunas do Instituto de Aperfeiçoamento (atual Instituto de Educação), Anita Fonseca, criou uma cartilha, chamada de pré-livro, que recebeu o nome de “O Livro de Lili”. Este ganhou o concurso instituído por Lúcia Casasanta e sua cartilha foi adotada nos cursos fundamentais, então chamados de primários, em Minas Gerais. Em sua primeira lição os alunos se deparam com o seguinte texto:

“Lili,
Olhem para mim,
Eu me chamo Lili,
Eu comi muito doce,
Vocês gostam de doce?
Eu gosto muito de doce!”











   

Observa-se que apresenta um texto de fácil compreensão para uma criança de 7 anos, um tema que apela para a cultura e os costumes locais, para a rotina de vida e os valores éticos e morais das famílias do período. Publicado pela primeira vez em 1930, passou por 83 edições até que o método global fosse substituído por novas orientações pedagógicas em meados da década de 1960. Lúcia Casasanta fora diretora da Escola de Aperfeiçoamento/Instituto de Educação e, posteriormente, Secretária de Estado da Educação de Minas Gerais. Granjeou fama nacional e internacional.

É preciso ser enfatizado que a Escola Normal Francisco Campos era considerada a terceira escola para normalistas do estado de Minas Gerais, vindo em primeiro lugar o Instituto de Educação, em Belo Horizonte e, em segundo, a Escola Normal de Juiz de Fora. O Método Global, com sua inovadora instrução de aprendizado através da memorização de uma pequena frase, a visão gráfica do seu conjunto, sua associação aos sons, em vez do velho e surrado método da silabação, foi revolucionário e formou gerações de pessoas que se tornariam luminares nas letras, nas ciências, nas artes e em outras áreas do conhecimento humano em Minas Gerais. Criticado por muitos, tido como elitista e fruto de um período autoritário na política brasileira (o Estado Novo), por desenvolver preconceitos sexistas e de raça (seria voltado para a população branca) e de maior poder aquisitivo, questionado por novos conhecimentos desenvolvidos por uma incipiente neurociência, foi abandonado por volta de 1965. Jaz esquecido hoje nos livros de história da pedagogia. Os métodos que o sucederam formaram e continuam formando gerações de pessoas que mal pronunciam o vernáculo, não sabem escrever e interpretar textos. Os chamados analfabetos funcionais. Uma catástrofe!

Minha mãe se foi muito cedo. Tinha apenas 37 anos quando problemas cardíacos acabaram por minar toda sua resistência corporal, após anos de sofrimento intenso. Recebeu em vida o carinho, a atenção e o amor de todos os seus. Deixou duas sementinhas pequeninas, dois filhos que lhe honraram a biografia. Não teve tempo de acompanhar as colegas da Escola em sua vida familiar, social e profissional. Não pode ver o sucesso na carreira docente de uma ou outra de suas colegas, pouco participou das recepções de seus noivados e matrimônios, pouco acompanhou suas vidas em suas novas famílias, pouco pode conhecer seus filhos e netos. Quão orgulhosa ela seria se pudesse descortinar a vida e o desempenho dos descendentes de suas tão queridas e amadas colegas!

Lembro-me muito bem, que quando vivi por algum tempo em Dores do Indaiá na década de 1950, havia sempre alguém a me lembrar que tinha sido colega dela na Escola e por quem nutria grande saudade. Me falavam de seus atributos pessoais, de sua bondade, de sua meiguice, de seu carinho para com todas, de seu apreço pelos professores. Este carinho era retribuído pelos mestres. Um deles, o ilustre médico dr. Edgard Pinto Fiúza visitou meus pais em São Paulo quando eles ali residiam no início da década de 1940, o que foi registrado em magnífica foto. Ao rever estas fotos sou tomado pela emoção! Belos tempos! Quanta saudade! Quanta poesia e lirismo nesse período único da história dorense! Memória que urge ser resgatada!





Da esquerda para a direita: Carlos, amigo da família,
Felício Pinto Ferrreira, Alvarina Malheiros, Dr. Edgar Pinto Fiúza,
Dilermando Corrêa, meu pai, e Maria de Oliveira.
Museu do Ipiranga, São Paulo. 1945. Acervo de Maria de Oliveira.


Se viva fosse quando, em 1951, a rainha das poetisas brasileiras Cecília Meireles escreveu seu poema Recado aos Amigos Distantes tenho certeza que Maria de Oliveira teria feito suas estes versos: 



Recado aos Amigos Distantes

Cecília Meireles, in 'Poemas (1951)' 

Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança. 






ANEXO 

Textos do Livro de Lili

1. Lili
Olhem para mim.
Eu me chamo Lili.
Eu comi muito doce.
Vocês gostam de doce?
Eu gosto tanto de doce!

2. Lili em seu piano
Lili toca piano.
Lili toca assim
Dó, ré, mi, fá...
Suzete é a cachorrinha.
Suzete ouve Lili tocar.
Toca Lili, toca dó, ré, mi, fá...

3. A cozinheira
Olhem esta cozinheira!
A cozinheira é a Lili.
Lili gosta de doce.
Ela faz doce de abacaxi.
Joãozinho, você quer doce?
Você gosta de doce de abacaxi?

4. As meias de Lili
Eu vou calçar as minhas meias
As minhas meias são azuis.
Que pena! A minha meia tão bonita está furada!
 Eu não sei coser!
Como há de ser?

5. As bonecas de Lili
Lalá, Bebê, Clarinha.
Lili dizia dorme assim nã, nã, nã.
Eu também vou dormir.

6. (Sem título)
Lili está brincando com a boneca.
A boneca fica de pé.
Lili fala para a boneca:
- Anda, anda, Lalá!
Lalá anda, anda.
Lili pega Lalá.

7. (Sem título)
Eu me chamo Joãozinho.
Este automóvel é meu.
Meu automóvel faz assim: fon-fon.
Totó passeia comigo.
Totó é o meu cachorrinho.
Você quer passear no meu automóvel, Lili?

domingo, 22 de janeiro de 2017

O Relógio da Matriz




Matriz de N. S. das Dores. Foto: Philadelpho.
S/d (provável década de 1930).
Fonte: Carlos Cunha Corrêa "Serra da Saudade",
1948. 


Uma de minhas memórias mais caras é o som do sino da Matriz de N. S. das Dores, em Dores do Indaiá. Desde quando minha família voltou de São Paulo para Minas Gerais, em 1947, passamos por Dores antes de meus pais morarem em Campos Altos, um município vizinho. Portanto, desde meus três anos, convivo com a sonoridade discreta deste marcador do tempo que também marcou de forma indelével minha história. Este som ficou gravado em mim e, mesmo há tantos anos sem visitar a terra de meus antepassados, sou capaz de recriá-lo em meu universo cognitivo como se o estivesse ouvindo em tempo real. A cada quinze minutos uma esperada e harmoniosa badalada. A cada hora uma celebração de mais um tempo vivido, de algo mais aprendido, de mais uma esperança renovada para os próximos quinze minutos. Um som inconfundível que fez parte de minha vida de menino e jovem. 

Algumas pessoas têm esta capacidade de reviver cenas de seu passado como se as experimentassem neste exato momento. É o caso do grande escritor francês, Marcel Proust, que em sua imortal obra "Em Busca do Tempo Perdido", relata suas vívidas memórias de infância, quando visitava sua tia Léonie, na pequenina cidade de Combray (na verdade, Illiers, na vida real) e lhe era servido o chá com um pequeno biscoito chamado "madeleine". O cheiro do chá com madeleine fazia-o reviver, imediatamente, grandes e detalhados lances de sua infância. Algo semelhante também ocorria com Dostoievski. Ele descreveu de forma precisa em seu clássico "O Idiota", na pessoa do personagem Príncipe Mishkin, tudo o que lhe passou pela mente, todas as lembranças pretéritas, como em um filme projetado rapidamente, nos minutos que antecederam ao seu fuzilamento simulado.

Eu, como um cão condicionado de Pavlov, tenho este som associado à bela imagem desta matriz de tão caros e memoráveis eventos de meninice, associado também às emoções de quem cresceu sonhando e planejando um futuro, quiçá em distantes paragens. Lembro-me bem, e quanto lembro, meu Deus!, que às seis da tarde, logo após as seis badaladas, as mais belas que já ouvi - que me perdoe o Big Ben ou o sino da Torre Troytskaya do Kremlin – ouvia a tão esperada reprodução em disco de acetato da canção italiana “Torna a Surriento” em alto-falante da torre da igreja Matriz. 

Quando, décadas mais tarde, passeava eu pelas estreitas ruas, circulando penhascos medonhos e maravilhosos, de Sorrento, vila da Campania, próxima a Nápoles, vendo as laranjeiras carregadas de frutos amarelando, como árvores ornamentais nos passeios e ruelas, me lembrei imediatamente da Matriz de N. S. das Dores.

Saí de Dores, mas Dores não saiu de mim, parte por culpa destes fantásticos sino e relógio. Quando ali voltava em outros tempos, as tão esperadas badaladas, traziam-me, incontinenti, as vívidas recordações de infância, agora regadas por um amargo sentimento de falta, de perda, de ausência, de um vazio impreenchível, depois que tantos entes queridos daquela época já haviam partido. Ao ver a torre da Matriz, com sua face iluminada pelo sol do oeste mineiro, voltada para o horizonte da Serra da Saudade, com seu azul em degradê, no brilho das tardes mornas, com a brisa a roçar o rosto, o silêncio urbano e sonolento entremeados por ruídos modorrentos da urbe pequenina, vinha-me uma tristeza infinita. Diversas vezes flagrei-me com lágrimas furtivas.  


Revendo algumas fotos antigas de meu acervo, decidi-me por empreender uma pequena pesquisa sobre este relógio e este sino que foram minha sina enquanto vivi nestas suaves colinas desta pequena cidade do Campo Grande.

A Igreja da Matriz de N. S. da Conceição de Dores do Indaiá teve sua construção iniciada em 1914 e foi concluída em 1921. É réplica da Igreja Matriz do Pilar, de Pitangui, também construída no mesmo período, após incêndio da antiga igreja do século XVIII.



Matriz do Pilar, Pitangui.
Foto de autor desconhecido. S/d.


Matriz do Pilar de Pitangui. S/d - Autor desconhecido.
A matriz tem quatro sinos, todos dos séculos XVIII e XIX,
pertencentes à antiga matriz incendiada em 1914.
Foto: Arquivo da Câmara Municipal de Pitangui.
Blog: "Daqui de Pitanguy".

Foram ambas construídas com plantas do mesmo engenheiro-arquiteto, Dr. Francisco Palmério, em estilo neogótico eclético. A de Pitangui foi construída pelo engenheiro Benedito José dos Santos e pelo chefe de obras Sétimo Caravita. Convidado, este não pode participar da construção da igreja de Dores, mas indicou seus auxiliares Fortunato Giorni e Ernesto Gatti, de origem italiana que foram os responsáveis pela bela obra. A construção tivera um primeiro momento, em 1902, por iniciativa do vigário Luís Gonzaga da Silva e Souza e do dr. Antônio Zacarias Álvares da Silva, mas foi interrompida por falta de recursos financeiros. 


Engrenagem do relógio da Matriz.
Foto: Paulo Cesar Pinto Ribeiro, 2012.


A Matriz de Dores foi construída com recursos financeiros doados pela comunidade. Um dos cidadãos que mais contribuiu para sua edificação foi Felício Pinto Fiúza, fazendeiro e financista em Dores. Para sua construção foi nomeada uma comissão pelo Padre Luís Gonzaga cujos componentes eram conhecidas figuras da sociedade dorense: Vigário Luís Gonzaga da Silva e Souza (como coordenador), dr. Sabino de Almeida Lustosa (Juiz de Direito), Ricardo Pinto Fiúza (o major, filho de Felício), Hipólito Augusto de Faria, João Crisóstomo de Faria, Joaquim Elias Pereira, Vicente Ferreira Carneiro, Júlio Ribeiro, Ofli Ribeiro, Bartolomeu Greco, Antônio Bento Ferreira e Cornélio Lacerda.

O relógio da Matriz é de origem suíça, da indústria J. C. Baer, construído em 1913, em Sumiswald, pequena cidade de cinco mil habitantes (censo de 2015), do distrito de Emmental, cantão de Berna. A fábrica do relógio pertenceu a tradicional família de relojoeiros suíços. Existem outras indústrias relojoeiras na cidade, provavelmente pertencentes aos descendentes dos antigos proprietários, em função da presença local de sobrenomes coincidentes. A cidade agora está voltada para a indústria de modernos relógios digitais. Este antigo relógio da Matriz, ainda funcionando normalmente, foi adquirido e doado por Carlota de Sousa Coelho (Cota), em 1915, para a Matriz. Custou 2:600$00 (dois contos e seiscentos mil reis). Esta era uma quantia considerável visto que com este dinheiro podia se comprar uma boa fazenda em Dores do Indaiá. Cota era viúva de Felício que, por sua vez, era um dos irmãos mais novos do pai de minha bisavó Etelvina Maria dos Santos (também conhecida como Vó Etelvina ou Etelvina Fiúza), Herculano Pinto Fiúza, o Dolor. Em homenagem ao casal Felício-Cota, o relógio passou a ser chamado de “Felício”. Cota era filha do padre Francisco de Sousa Coelho, importante personagem da história de Dores no século XIX e líder local da Revolução Liberal de 1848. Seu avô era o lendário José de Sousa Coelho, o Juca de Sousa, judeu de origem portuguesa sobre o qual faremos mais referências logo abaixo. Seus descendentes herdaram sua riqueza. 



Placa mandada colocar no relógio por sua doadora,
Carlota de Sousa Coelho.
Foto: Paulo Cesar Pinto Ribeiro, 2012. 


Engrenagem do relógio da Matriz. Foto de autor desconhecido. S/d.


Felício e Cota não tiveram filhos e tinham muitas posses. Após se enviuvar, Cota doou uma fazenda, Cocais, para sua sobrinha e grande amiga Etelvina. Cota acompanhou de perto a construção da Matriz. Infelizmente, não pode presenciar sua inauguração já que faleceu em 1920, quase um ano antes do término das obras. Em 2 de abril de 1921 realizou-se a inauguração solene do belo templo, começando com uma alvorada, ainda pela madrugada. Às 9 horas, o Vigário, Pe. Luís Gonzaga, coadjuvado pelos padres Francisco, do Coração de Maria, e Batista, coadjutor da paróquia, leu a portaria do Arcebispo autorizando a inauguração. Em seguida, a igreja foi benzida por fora e por dentro. Seguiram-se dois dias de intensas festividades, com direito a execução do Hino Nacional, queima de fogos de artifício, 4 descargas cerradas e uma salva de 21 tiros, procissões para translado das imagens e do Santíssimo Sacramento. Tudo encerrado com um solene Te Deum na tarde do dia 22. Alguns anos depois, o templo foi elevado à categoria de Santuário, por iniciativa do Monsenhor Mário Silveira. Estas são informações extraídas do interessante livro "Dores do Indaiá do Passado", de autoria do Prof. Waldemar de Almeida Barbosa, publicado em 1964 (Pp. 56-59).



Torre e relógio da Igreja de Sumiswald, Suíça.
Construída em 1510-1512.
Fonte: Wikipedia.


Segundo informações extraídas da obra "Do São Francisco ao Indaiá", do Prof. Rubens Fiúza, 2003, (pp 119-152), Juca de Sousa, o avô de Cota, teria sido um dos fundadores de Dores do Indaiá. Foi casado em segundas núpcias com Ana Maria Milagres. Teria uma propriedade (sesmaria), área esta pertencente, em parte, aos municípios de Dores do Indaiá e Quartel Geral. Sua enorme renda viria de lavras clandestinas de diamantes e ouro. Desde 1736 já existia a Picada de Goiás, variante de Pitangui-Paracatu, construída por Domingos de Brito. Ao construir a picada, no alto de um planalto, erigiu o Rancho da Boa Vista, mais tarde transformado no Arraial da Boa Vista, futura Dores do Indaiá. Este rancho servia de pousada e descanso para os tropeiros e viajantes extenuados de longas caminhadas diárias na picada. O local fica próximo onde é hoje a Escola Normal de Dores.



Sumiswald Gasthof Baeren-2.jpg
Torre e relógio da igreja de Sumiswald, Suíça.
Fonte: Wikipedia.


Juca de Sousa seria filho de judeus e sua família fugiu da Inquisição. Os Sousa Coelho procedem de Portugal, região do Porto. Antes, tinham vindo da aldeia navarresa (de Navarra) de Sefar, cujo nome vem da palavra Sefarad, que significa em hebraico "Terra Prometida". O pai de Juca de Sousa teria morrido alguns anos antes, queimado num Auto de Fé pela Inquisição, na Espanha. Em Portugal, foram forçados a se converter ao catolicismo. José (Juca), sua mãe e seus irmãos emigraram para o Brasil em meados do século XVIII (1752) e foram para Pitangui, onde se tornaram importantes na política local e se destacaram como comerciantes e, mais discretamente, mineradores e contrabandistas de ouro e diamantes para o cartel judaico de Londres e Amsterdã. Juca prosperou tanto que se tornou camarista (vereador) por várias legislaturas, entre 1760 e 1780.  

Mesmo morando em Pitangui, Juca construiu a casa mais antiga de Dores, na Praça São Sebastião, atual Praça Alexandre Lacerda, número 30, em 1815. A parte de trás da casa foi demolida e é de propriedade, atualmente, da filha do falecido sr. João Paulino, renomado fazendeiro local. O filho de Juca de Sousa, Padre Francisco de Sousa Coelho (1790-1860) continuou morando na casa após a morte do pai. Construiu depois, em 1830, uma casa ao lado, no número 48, onde é hoje a casa da família do Sr. Homero Ribeiro. O Padre Francisco estudou no Seminário de Mariana, onde se ordenou sacerdote por volta de 1805. Após quatro anos, na ausência de vocação, abandonou o sacerdócio. Casou-se com uma jovem de 13 anos, Jesuína Marcelina Calabró (ou Véu, ou Braga, ou Zica). Segundo Rubens Fiúza, a menina teria sido raptada. Eram comuns no período os casamentos com meninas de 12, 13 e 14 anos. Tiveram diversos filhos, dentre eles Cota. Seus descendentes herdaram todo o patrimônio de Juca de Sousa.



Casa construída por Juca de Sousa (José de Sousa Coelho),
        em 1815. Foto: Antônio Carlos Corrêa, 2015.


Felício e Cota viveram nesta casa de número 48. Após o falecimento de Felício, Cota permaneceu aí enquanto viveu.  Etelvina morava na segunda casa à sua esquerda, na mesma praça, na esquina da Rua Rio de Janeiro.



      Casa construída por Francisco de Sousa Coelho, filho de 
Juca de Sousa, em 1830, número 48 da praça Alexandre Lacerda, 
ao lado da casa de seu pai. Foto: Antônio Carlos Corrêa, 2015.

O casal Felício-Cota adotou o filho natural de Felício (com uma índia de Goiás), Ricardo Pinto Fiúza, conhecido como Major ou Ricardinho, que deu origem a importante, conceituada e ilustre família de Dores do Indaiá. Cota o criou com todo o carinho e atenção permitindo que ele se tornasse um importante cidadão na história de Dores. Casou-se com Maria de Sousa Melgaço, a Sá Bilia, filha de Luiza de Sousa Coelho, que, por sua vez, era filha do Padre Francisco de Sousa Coelho. Luiza foi casada com o português Jacinto Esteves Melgaço, deixando grande descendência nas famílias Sousa Coelho, Guimarães e Melgaço.



Da esquerda para a direita: Felício Pinto Fiúza,
Carlota de Sousa Coelho, Ricardo Pinto Fiúza.
Foto de autor desconhecido. Ca. 1880.
Foto do acervo da Sra. Maria das Dores Caetano Guimarães 

(D. Branca).

 
 Etelvina, filha de Herculano Pinto Fiúza, o velho, irmão de Felício Pinto Fiúza, recebeu de Carlota, sua tia e madrinha, de presente a Fazenda Cocais, onde a administrou com pulso forte e grande tino administrativo. Neste local criou toda sua prole, e até netos nasceram na fazenda, como o escritor Zezé Machado. Seus descendentes pertencem às famílias Fiúza, Ribeiro, Coelho, Corrêa, Lacerda, Oliveira, Souza, Botinha, Machado e outras.



Etelvina Maria dos Santos.
Foto de autor desconhecido. Ca. 1935.
Foto do acervo de Angélica de Oliveira Corrêa


Fazenda Cocais. Foto de pintura que retrata a antiga fazenda.
Do acervo de Paulo Ribeiro de Andrade.


Matriz de N. S. das Dores, Dores do Indaiá.
Foto: Google, 2017.


Agora mesmo, enquanto revivo na memória este relato, na medida em que minhas cansadas retinas percorrem estas fotos de álbuns familiares, não consigo evitar uma furtiva lágrima e um engasgo de emoção. Haja coração!



Ao passear pelas ruas estreitas de Sorrento, na Costa Amalfitana,
próxima a Nápoles, Itália, no alto das escarpadas encostas,
não pude deixar de pensar na longínqua Dores do Indaiá.
Foto: www.sorrentoturismo.com


Sorrento, na Costa Amalfitana, próxima a Nápoles, Itália.
Foto: www.sorrentoturismo.com